Verissimo
“Vou morrer sem realizar o meu grande sonho: não morrer nunca.”
Paraty, Flip de algum ano longínquo. 2010? 2011? Difícil saber.
Me lembro mais da sensação, isso sim, como se fosse ontem. Um grupo de jovens emocionados, aguardando para falar com o escritor famoso. Era a nossa primeira Flip, tudo era muito latente. Não sabíamos ainda que era possível virar uma esquina e pá, dar de cara com Luis Fernando Verissimo.
Ele era entrevistado por um jornalista que o parou ali mesmo, na rua. Paramos também, sem fingir costume. “Meu Deus, é ele”, cochichávamos animados. Uma senhora, que também esperava sua vez, nos repreendeu. “Se controlem, vão atrapalhar a entrevista”. Não ligamos. Éramos jovens, impressionáveis e intensos. Tudo era muito.
Falamos com Verissimo brevemente, ele agradeceu o carinho, seguiu caminho pelos paralelepípedos irregulares do centro histórico. O repórter, depois descobri, era d’O Globo. Ele pegou meu depoimento para a coluna do Ancelmo Góis, o inevitável personagem “tiete de escritor”, algo não muito raro em tempos flipísticos. Tinha a matéria printada em algum lugar, agora não sei que fim levou.
A alegria em ver Verissimo é uma coisa que nunca se aquietou em mim. Não era nosso primeiro encontro, e também não seria o último.
Menos de dez anos antes, ele foi parar logo na cidade vizinha à minha. Lá em casa, éramos assinantes do Estado de Minas, o maior impresso da capital. Leopoldina era muito longe de Belo Horizonte (329 quilômetros, pra ser exata), mas a Zona da Mata na época tinha apenas a cobertura de TV da repetidora local da Globo, e mesmo assim ficava em Juiz de Fora. Resumindo, era o mais próximo de um impresso local que tínhamos.
O Estado de Minas realizou um ciclo de conversas com escritores brasileiros por diversas regiões. Não me lembro exatamente como aconteceu, mas na minha cabeça foi um sorteio que determinou quais locais receberiam o evento. E calhou de Verissimo ir parar em Cataguases, coisa de 30 minutos da minha cidade. O evento seria gratuito, no único cinema de lá, o que significava precisar chegar cedo e garantir lugar na fila.
Não foi problema: minha mãe me levou e entramos com tranquilidade. A conversa, em si, foi agradabilíssima. Com a sua timidez contumaz, Luis Fernando lembrou como começou a escrever, como conheceu a esposa Lúcia e falou sobre a crônica como ofício. No fim, assinou autógrafos para todos. Está em algum dos muitos álbuns que tenho pela casa esse registro: a Nathália de 14 anos pegando a assinatura de seu maior ídolo.
A idade em que esse encantamento começou eu não sei exatamente. 11, 12 talvez. A biblioteca da minha escola era minúscula e eu esgotei os livros permitidos à minha faixa etária. Mas uma das alunas mais velhas, apaixonada por Verissimo, escreveu à editora LP&M pedindo o envio gratuito de alguns exemplares para a biblioteca da escola, e foi prontamente atendida. Assim, a capa quase inocente de Comédias da Vida Privada fez com que o livro fosse parar logo na prateleira da quinta ou sexta série.
Não deveria, mas foi. Fica entre nós. Eu li a primeira crônica e não consegui largar. O livro é até hoje um dos mais longos do Verissimo, mas isso não me impediu de acabar no dia seguinte. Por sorte, pouco tempo depois a editora Objetiva começou a republicar as crônicas do autor em uma coleção que se transformou em um dos mais memoráveis sucessos na literatura brasileira das últimas décadas: um livro com palavras, ora essa; escrito por um brasileiro; sem ensinar a ficar rico ou “blindar” casamentos. E que ainda assim não saía da lista de mais vendidos da Veja, da Época ou da IstoÉ (lembra quando revistas semanais eram importantes?).
Claro que os títulos ajudavam. As mães podiam ir à livraria e levar, de uma vez só, As Mentiras Que Os Homens Contam e Comédias Para se Ler na Escola – um exemplar para si, outro para os filhos. As lombadas começavam a formar o rosto do escritor, que era colocado como protagonista de uma forma pouco usual no mercado editorial. A coleção da Objetiva se estendeu por muito tempo, e essa foi a casa editorial de Verissimo até o fim.
Foram, primeiro, volumes temáticos. Sobre comida, cinema, Deus, sexo, futebol, política, verão, famílias disfuncionais. Então vieram os romances, poesia, os contos, as cobrinhas. Por fim, a Objetiva publicou um calhamaço, uma coleção que colocava o escritor na categoria que sempre mereceu: Antológico.
O livro era um fechamento de ciclo claro. Verissimo já não mais publicava suas colunas semanais n’O Globo. Os últimos anos não parecem ter sido fáceis: enfarto, AVC, Parkinson. O último vislumbre que tivemos do seu dia a dia veio do documentário que levou seu nome, lançado no ano passado com certo atraso: o filme acompanha os dias que antecediam o marco dos 80 anos de Luis Fernando. Entre idas ao médico e sessões de fisioterapia, ele passa algum tempo no escritório, lendo; assistindo a jogos do Internacional; e paparicando os netos. Uma vida boa, na medida do possível.
Meu avô costumava dizer que ao velho não se pergunta se tá tudo bem, e sim onde dói naquele dia.
Com a notícia da última internação, já era de se imaginar: o quadro era grave, os anos pesavam. No sábado, veio a confirmação: Verissimo passou de antológico a eterno. Ele próprio tenderia a dizer que não há nada após a morte, mas há muito que fica para trás. E, no caso de Luis Fernando Verissimo, para muito além da dimensão pessoal e familiar, há uma obra vultuosa que vai fazê-lo sobreviver – pelo menos enquanto essa coisa de literatura significar alguma coisa.
Tive sorte, mesmo. Minha maior paixão na literatura foi um escritor das massas, um tímido com muito a dizer, dono de uma produção constante e sempre de altíssimo nível. Ser contemporânea de Luis Fernando Verissimo significou ver a sua literatura se expandir, aguardar com ansiedade as páginas do jornal e o próximo evento nas livrarias. Fazer fila para receber seu autógrafo foi meramente simbólico. Tenho aqui alguns exemplares com sua assinatura e, mais perto do fim, quando a firmeza com a caneta deixava a desejar, com seu carimbo.
[Essa aqui deu pra encontrar, voltando (e muito) no feed]
As homenagens são muitas, porque são necessárias. Vejo os autores dessa geração se despedindo todos (protejam Zuenir Ventura e Mauricio de Sousa a todo custo!). Não costumo ser uma pessoa que vive de saudosismo, e tampouco faço parte do discurso “a crônica está morrendo” (vocês viram essa tour? que vergonha alheia!). Mas vejo a despedida de uma turma que fez muitos brasileiros se apaixonarem pelos livros e pelas letras. Essas são as pessoas que seguem publicando hoje, senão pelas editoras tradicionais, de forma independente e inclusive aqui no Substack.
O que deixa muitos de luto é a constatação de que estamos perdendo grandes símbolos de uma era. Não necessariamente melhor ou pior que esta, apenas importante. Formadora. Impressionante. Sabino, Ubaldo, Ziraldo, Millôr, Colasanti, Lygia, Piñon, Hilst, Braga, Luft.
Mas, de alguma forma, não é um luto triste. É uma despedida, cheia de uma imensa gratidão por tudo que vivemos juntos. A velhinha de Taubaté, Ed Mort, o analista de Bagé, as Patrícias, as cobras, os amigos de mesa de bar, as musas, os casais improváveis – todos eles continuarão.
Verissimo conseguiu ser gigantesco no país dos poucos leitores, do sobrenome que carregava e da sua própria personalidade introspectiva. Mais que estatura, tinha um humor sagaz, uma perspicácia e timing impecáveis e uma habilidade que muitos escritores ainda não dominaram: a hora de saber quando parar de escrever, cortar palavras, se ater ao mínimo necessário para entregar a mensagem. Era abundante, mas minimalista.
Seguindo sua cartilha, vou parar por aqui. Não porque tenha esgotado o assunto, mas porque não há nada que possa dizer que irá capturar a grandeza desse adeus. Nunca havia perdido uma figura tão importante na minha história e, ao mesmo tempo, tão distante de mim. É um sentimento estranho, para dizer o mínimo.
O peito quer chorar, mas ao mesmo tempo agradecer. Pelas companhias nas infinitas viagens de ônibus para a escola, a faculdade, o trabalho. Pelas risadas mesmo nas madrugadas em que um bebê pesava meus braços. Pelas surpresas a cada página, mesmo quando já se imagina o que esperar. E pela deliciosa sensação de preciosidade, a vontade de economizar páginas para não ler o livro de uma só vez. Poupar, saborear cada crônica, na certeza de que o “só mais uma” ao final seria inevitável.
Já faz tempo que não temos novas crônicas de Verissimo para saborear. Mas Verissimo sempre teremos. Eterno. Antológico. Absoluto.




Tinha certeza que você faria um texto lindo, mágico e emocionante sobre o Veríssimo! Que presente é ter na vida literária um farol como ele, um autor capaz de mudar sua percepção da realidade e do mundo, abrindo janelas e mais janelas de histórias possíveis.
Que texto incrível. 💙