Test drive da vida
Escolher tudo aos 17 anos nunca pareceu uma boa ideia. É cada uma, viu?
O que me ficou da leitura de De Quatro, da Miranda July, não foi exatamente o livro. Li em dezembro, achei irregular, bem menos interessante do que o entusiasmo geral parecia prometer. Mas uma ideia específica atravessou a leitura e não saiu mais da cabeça. A noção de que existe algo quase impensável para nós, das sociedades “modernas”: a autorização explícita para testar a vida antes de se comprometer com ela.
No livro é citado assim, en passant, o rumspringa, um costume de comunidades amish nos Estados Unidos que já é tão estabelecido que tem até um filme da Netflix sobre isso. Os amish vivem de forma bastante apartada do mundo como conhecemos, com pouca ou nenhuma tecnologia, rotinas rígidas e um forte vínculo religioso e comunitário. A vida adulta ali costuma seguir um roteiro bem definido: trabalho, casamento, permanência naquele modo de vida. O rumspringa é a exceção a essa regra. Um período em que os jovens podem sair desse ambiente, conhecer outras rotinas, experimentar o mundo lá fora, antes de decidir se querem assumir aquele caminho para o resto da vida.
O que me chamou atenção foi o fato de ser uma prática institucionalizada. Não é rebeldia, nem crise. Existe uma espécie de consenso de que escolher algo tão definitivo sem antes viver outras possibilidades talvez não faça muito sentido. O que devia ter de adolescente fugindo pra experimentar os excessos do mundo exterior, também…
Acho que por isso essa ideia ficou martelando agora, nesse começo de ano. Não por alguma tradição de virada simbólica, mas porque o contraste é palpável. A gente vive numa lógica quase oposta. Aqui, testar costuma ser visto como perda de tempo. Hesitar vira sinônimo de atraso. Mudar de ideia, um erro a ser corrigido o quanto antes. Desde cedo, somos empurrados a decidir coisas grandes com um repertório ainda muito pequeno, como se a vida adulta fosse um mergulho que exige salto firme, e não um processo em que dá para colocar o pé na água, sentir a temperatura, recuar um pouco.
A sensação é a de que se espera das pessoas uma clareza precoce que alguns têm, mas nem todo mundo alcança com espinha na cara. Escolher profissão, curso, trajetória, rotina, tudo rápido, tudo com ar definitivo com um grande objetivo em mente: ser “alguém”. Virar gente, do tipo que ganha dinheiro. Decide-se como quem preenche um formulário, imaginando versões idealizadas do futuro, quase sempre baseadas em status, promessa ou projeção. O que fica de fora dessa equação é o cotidiano. O dia após o outro. O trabalho repetido, as frustrações pequenas, o cansaço acumulado e até as picuinhas internas que toda profissão tem.
Eu tive um gap year depois do ensino médio, embora na época não chamasse assim. Não foi um plano sofisticado nem uma decisão estratégica. Foi mais uma percepção meio crua de que o que eu achava que queria fazer não existia na minha cidade e talvez nem estivesse ao meu alcance naquele momento. Eu queria algo com cinema, com literatura, mas isso era mais desejo difuso do que projeto concreto. Esse ano pós-Ensino Médio virou três. Trabalhei como professora de inglês, aprendi o básico sobre autonomia, responsabilidade e dinheiro. Comecei Letras, desisti de Letras. Aos 21 anos, entrei em Jornalismo. E aí, sim, algo encaixou.
Hoje, eu mudaria de carreira? Talvez. Mas não por arrependimento. Jornalismo é uma cachaça, pode perguntar pra qualquer um. Dá prazer, dá desgaste, cobra caro, mas a gente se prende a ele, cada um com seu motivo (visibilidade? idealismo? dinheiro que não é). O ponto é que essa escolha não foi feita no escuro completo. Houve tempo de errar, de testar, de perceber o que não funcionava antes de assumir algo que, na prática, define boa parte da vida.
Quando se olha para os números, dá para suspeitar que o desconforto não é individual. Fui procurar porque sabia que ia encontrar algo mais concreto pra embasar isso. E batata: dados da Gallup indicam que cerca de 70% das pessoas no mundo não se sentem engajadas no trabalho. Sete em cada dez. Não parece razoável tratar isso como falta de vocação, preguiça ou fragilidade emocional coletiva. “Ah, porque essa geração…”. Parece mais honesto encarar como um problema de modelo. Um sistema que exige decisões cedo demais e oferece pouco espaço para revisão depois.
A cultura pop captou tão bem esse mal-estar que já tem um subgênero para os dramas e as comédias focadas em ambientes de trabalho. A fantasia de implodir aqueles escritórios que parecem labirintos de cubículos em Quero Matar Meu Chefe não surge do nada. A ideia de separar radicalmente quem você é no trabalho e quem você é fora dele em Ruptura funciona porque toca num incômodo. A ficção exagera, claro, mas exagera algo reconhecível. A sensação de ‘como eu vim parar aqui mesmo?’, aquele olhar de desespero silencioso do Jim em The Office - eu sei que você sabe do que eu tô falando.
Talvez uma das mudanças mais interessantes em curso seja justamente a tentativa de reposicionar algumas decisões. Trabalho e casamento continuam importantes, mas já não ocupam sozinhos o centro absoluto da vida. Aos poucos, parece haver um esforço coletivo de redistribuir peso, de entender que a existência não se organiza só em torno desses dois eixos, e que não decidir tudo de uma vez não é sinônimo de fracasso. Inclusive, as mudanças nos modelos de trabalho, na legislação, na vida pessoal e até na tecnologia estão forçando muita gente a mudar de carreira com 40, 50, 60 anos, seja virando Uber, seja voltando pra faculdade.
No fim, o que o rumspringa sugere não é fuga de responsabilidade nem romantização da indefinição. É algo mais simples, a mera ideia de que compromissos grandes pedem experiência, não só expectativa. E que talvez o estranho não seja tanta gente insatisfeita com as escolhas que fez, mas a naturalidade com que seguimos exigindo decisões definitivas de quem ainda mal teve tempo de viver. Vide a facilidade com que a gente normaliza permanecer em contextos que apagam nossa luz apenas porque “é assim mesmo”.
Pra esse ano novo, eu só posso esperar que a gente pare de superestimar decisões e subestimar o tempo. Poucas escolhas são pra sempre - nem trabalho, casamento, sequer uma tatuagem na cara! Às vezes é só um emprego que parecia incrível no LinkedIn e virou uma rotina insuportável. Um curso escolhido com convicção absoluta que, seis meses depois, já não faz tanto sentido assim. Um plano feito com planilha, meta e prazo que desanda logo na primeira curva.
A maioria dos tropeços não é o fim da linha, é só aquele desvio meio feio que você tenta disfarçar. Até sai catando cavaco, mas fica tudo bem. A vida é cheia dessas decisões que pareciam geniais numa terça-feira e questionáveis numa sexta à noite. Algumas rendem aprendizado, outras rendem piada interna. Ambas são úteis.
No fundo, quase ninguém sabe exatamente o que está fazendo. A diferença é que uns assumem isso e outros fingem muita convicção no Instagram. O tempo, esse sim, costuma ser mais generoso do que a gente imagina. Ele dá chance de corrigir rota, de mudar de ideia, de começar outra coisa, agora com um pouco mais de experiência e consciência.
Com sorte, se certos presidentes não implodirem o mundo, em 2027 o GPS recalcula a rota. E se recalcular de novo em 2030, tudo certo também. O importante é seguir andando, mesmo que às vezes seja para perceber, um pouco atrasada, que aquele não era o caminho.



Às vezes eu acho até que o test-drive da vida precisa de uma certa experiência pra ser apreciado. Ter liberdade aos 17 é diferente de ter liberdade aos 25 ou aos 30 e por aí vai. Que bom que, diferente dos amish, podemos seguir nos dando a liberdade de testar e seguir testando ao longo da vida.